segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Editorial


Estamos a comemorar, no presente ano lectivo 2007/2008, 170 anos da nossa instituição, Liceu/Escola Secundária Jaime Moniz.Ao longo do ano iremos realizar um conjunto de iniciativas culturais, debates, conferências, colóquios, painéis, encontros, com o objectivo de sensibilizar e mobilizar a nossa comunidade educativa para o reavivar da nossa memória colectiva e também dar a conhecer à sociedade civil o que fomos, o que somos e o que pretendemos ser.Os números da revista o Lyceu centrar-se-ão, de um modo muito especial, na comemoração dos 170 anos, reflectindo o nosso percurso secular, a nossa história, a nossa cultura organizacional e as pessoas que, com o seu engenho e arte, contribuíram para engrandecer a nossa instituição.Este evento constitui um marco importante para podermos reflectir sobre o nosso passado, sobre tudo aquilo que foi feito em prol da educação na Madeira, sobre o papel, deveras importante, de muitos professores e funcionários que deram o melhor das suas vidas pela nobre causa da educação e que jamais poderão ser esquecidos. Celebrar os 170 anos da nossa instituição é também avivar na nossa memória os milhares de jovens, da Madeira e do Porto Santo, 140.000 aproximadamente, que passaram pela nossa Escola e que nos seus verdes anos sonharam com um futuro melhor e aprenderam a ser os homens do amanhã.Celebrar os 170 anos é também um momento importante da nossa afirmação como uma grande Escola, que se quer de Qualidade e de Excelência e que seja uma referência de inovação e de sucesso escolar no contexto educacional da Região Autónoma. Nós, herdeiros de um património histórico-cultural e escolar rico e multifacetado, temos que nos sentir orgulhosos e perpetuar esse legado para as gerações vindouras.

Jorge Moreira - Presidente da Direcção Executiva

Benção das Capas


A Benção das Capas tendo uma conotação religiosa é, para muitos, uma celebração meramente ecuménica. Para outros, nos quais me incluo, é simplesmente parte de uma tradição que, no interesse do não desfasamento da nossa identidade estudantil, quer-se cumprida e respeitada. O Dia da Bênção das Capas será como um culminar de todo um trabalho que vem sendo desenvolvido há 12 anos, constituindo-se como a afirmação e a dignificação de todo esse esforço.
João Diogo - 12º 30


«A meu ver, o Dia da Bênção das Capas no seu todo (cerimónia religiosa e baile de finalistas) é um dia razoavelmente especial. Simboliza a passagem pelo último ano do secundário em direcção ao ensino universitário.»
Joana Fonseca - 12º30

«O dia da Bênção das capas é, sem dúvida, um dia muito especial. Vou dizer o que sinto, evitando usar o lugar-comum ”é o fim de mais uma etapa”.Para além de vestir um smoking, ir à igreja e ser abençoado (espero que bem abençoado) significa que, de facto, já me sinto bem adulto (ainda jovem!). O “peso” da capa é o peso da responsabilidade de terminar o 12.º ano e reflectir seriamente sobre o futuro. É o não que-rer desiludir os que me são próximos e queridos e isso também se estende aos meus professores. É o culminar de uma etapa de sonhos, de muito trabalho para os conseguir e muitos sacrifícios. É a sensação de que vale a pena o esforço.»

Pedro Nuno Tranquada Gomes - 12º 9

«Todos nós iremos atribuir uma concepção diferente ao dia da Bênção das Capas, todavia haverá um brilho comum nos olhos de todos os estudantes que vão participar. Neles reflectem-se a alegria e o orgulho de estar a um passo do mundo Universitário.»

Cristina Faria - 12º40

Fotos da Benção

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): A criação do Liceu do Funchal e sua instalação


O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910):


A criação do Liceu do Funchal e sua instalação


O decreto de 17 de Novembro de 1836 de Passos Manuel aprovou o plano dos Liceus Nacionais em todas as capitais de distrito.O Liceu do Funchal é instalado no dia 12 de Setembro de 18371, tendo o Conselho decidido, que por meio de um edital, se publicasse de quantas aulas se compunha o Liceu, qual o processo de matrículas, quais os dias feriados e outras disposições previstas na lei, cujo conhecimento interessasse aos pais e encarregados de educação, de modo a sensibilizá-los para que enviassem os seus educandos para as aulas.O edital publicado, no Jornal “A Flor do Oceano”, a 17 de Setembro, informa-nos que as aulas (cadeiras) que compõem o Liceu Nacional do Funchal são: 1ª - aula das línguas Francesa e Inglesa; 2ª - aula de Gramática Portuguesa e Latina, Clássicos Portugueses e Latinidade; 3ª - aula de Ideologia, Gramática Geral e Lógica; 4ª - aula de Aritmética, Geometria e Trigonometria e Desenho; 5ª - aula de Economia Política, Administração Pública e Comércio; 6ª - aula de Oratória, Poética e Literatura principalmente a portuguesa. Mais informa que os alunos teriam de entregar, no acto da matrícula, a certidão de médico pela qual prove que não padece de moléstia contagiosa e que já teve bexigas (varíola) ou foi vacinado e atestado do professor da escola normal pelo qual se ateste que tem perfeito conhecimento das artes de ler, escrever e contar. Precisa, ainda, que o ano lectivo começa no dia 1 de Outubro e termina no final de Julho, sendo o mês de Agosto destinado a exames e indica os feriados.A abertura solene realizou-se no dia 10 de Outubro, com a presença das mais altas individualidades do distrito que haviam sido convidadas, de acordo com deliberação tomada pelo conselho de professores, realizado a 2 de Outubro2, assim como “todas as pessôas de letras nelle residentes, e os paes dos alumnos matriculados”, tendo sido eleito, por escrutínio secreto, o Dr. João de Freitas de Almeida para proferir o discurso de abertura do ano lectivo.

Jorge Moreira - Grupo 400

(Na foto, o primeiro edifício do Liceu do Funchal)

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): As instalações

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910):



As instalações



O Liceu ficou instalado no mesmo local onde funcionavam as “Aulas do Páteo”, que tinham sido decretadas em 1772 pelo Marquês de Pombal e que constavam de 3 aulas de latim, uma de grego, outra de retórica e outra de filosofia. O local era uma dependência do Colégio dos Jesuítas, na rua dos Ferreiros, onde hoje é uma loja e armazém de vinhos. Situava-se num rés do chão e tinha apenas três salas3, apesar de o Art.º 59º do Decreto de 17 de Novembro de 1836, determinar que “Os Liceus serão estabelecidos em edifícios públicos, bem situados e saudáveis, e quanto puder ser apropriados à boa ordem e economia das aulas”.Com o passar dos anos o número de alunos aumentou e as novas orientações pedagó-gicas tornaram o espaço, já de si exíguo, no maior pesadelo para o reitor e para os professores, impróprio para a prática lectiva, visto ser uma casa velhíssima, em péssimas condições higiénicas, não tinha capacidade necessária para as aulas estabelecidas por lei que regula o ensino secundário, nem a mobília indispensável para a frequências delas, levando a um estado de degradação. Em 1850, o Governador Civil Conselheiro José Silvestre Ribeiro num relatório enviado para o Ministério, após algumas reparações que mandara executar, afirma: “Espero que na abertura do próximo futuro ano lectivo, as aulas apresentarão estado bem diferente que até agora tinham, podendo ser visitadas por nacionais e estrangeiros, sem que o aspecto delas seja, como por muito tempo foi, um motivo de vergonha para todos nós.”4 Assim o Conselho, em 23 de Março de 1867, delibe-rou que se oficiasse ao Governo de sua Majestade que através da Repartição das Obras Públicas se procedesse à escolha de local e orçamento de despesa a fazer com um liceu, “porquanto é sobejamente conhecido a impossibilidade e inconveniência que há em que este estabelecimento continue com a exiguidade de condições em que se acha, exigui-dade que se converte em prejuízo do ensino e disciplina por que cumpre zelar.”5Apesar de todos os pedidos e deliberações, o estado das instalações continuava em estado miserável, com somente três salas frias, húmidas, escuras. Em 18746 o Conselho volta novamente a consultar o Governo acerca do péssimo estado do edifício e sobre a conveniência de transferir o edifício do Liceu para a casa onde está o asilo que se destinara para o Lazareto. Ainda, devido ao péssimo estado de ruína do edifício, o Conselho em sessão de 3 de Junho de 1880, resolve não realizar qualquer comemoração para se associar aos festejos do tricentenário de Camões.Após diversas e constantes insistências dos principais responsáveis, o liceu muda-se para a casa do Barão de S. Pedro - actual DRAC - na Rua dos Ferreiros, melhorando imenso as condições de ensino e de aprendizagem, permitindo o funcionamento das salas de estudo criadas pela lei de 11 de Junho de 1880.


Jorge Moreira - Grupo 400

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): As instalações


O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910):


As instalações


O Liceu ficou instalado no mesmo local onde funcionavam as “Aulas do Páteo”, que tinham sido decretadas em 1772 pelo Marquês de Pombal e que constavam de 3 aulas de latim, uma de grego, outra de retórica e outra de filosofia. O local era uma dependência do Colégio dos Jesuítas, na rua dos Ferreiros, onde hoje é uma loja e armazém de vinhos. Situava-se num rés do chão e tinha apenas três salas3, apesar de o Art.º 59º do Decreto de 17 de Novembro de 1836, determinar que “Os Liceus serão estabelecidos em edifícios públicos, bem situados e saudáveis, e quanto puder ser apropriados à boa ordem e economia das aulas”.Com o passar dos anos o número de alunos aumentou e as novas orientações pedagó-gicas tornaram o espaço, já de si exíguo, no maior pesadelo para o reitor e para os professores, impróprio para a prática lectiva, visto ser uma casa velhíssima, em péssimas condições higiénicas, não tinha capacidade necessária para as aulas estabelecidas por lei que regula o ensino secundário, nem a mobília indispensável para a frequências delas, levando a um estado de degradação. Em 1850, o Governador Civil Conselheiro José Silvestre Ribeiro num relatório enviado para o Ministério, após algumas reparações que mandara executar, afirma: “Espero que na abertura do próximo futuro ano lectivo, as aulas apresentarão estado bem diferente que até agora tinham, podendo ser visitadas por nacionais e estrangeiros, sem que o aspecto delas seja, como por muito tempo foi, um motivo de vergonha para todos nós.”4 Assim o Conselho, em 23 de Março de 1867, delibe-rou que se oficiasse ao Governo de sua Majestade que através da Repartição das Obras Públicas se procedesse à escolha de local e orçamento de despesa a fazer com um liceu, “porquanto é sobejamente conhecido a impossibilidade e inconveniência que há em que este estabelecimento continue com a exiguidade de condições em que se acha, exigui-dade que se converte em prejuízo do ensino e disciplina por que cumpre zelar.”5Apesar de todos os pedidos e deliberações, o estado das instalações continuava em estado miserável, com somente três salas frias, húmidas, escuras. Em 18746 o Conselho volta novamente a consultar o Governo acerca do péssimo estado do edifício e sobre a conveniência de transferir o edifício do Liceu para a casa onde está o asilo que se destinara para o Lazareto. Ainda, devido ao péssimo estado de ruína do edifício, o Conselho em sessão de 3 de Junho de 1880, resolve não realizar qualquer comemoração para se associar aos festejos do tricentenário de Camões.Após diversas e constantes insistências dos principais responsáveis, o liceu muda-se para a casa do Barão de S. Pedro - actual DRAC - na Rua dos Ferreiros, melhorando imenso as condições de ensino e de aprendizagem, permitindo o funcionamento das salas de estudo criadas pela lei de 11 de Junho de 1880.


Jorge Moreira - Grupo 400


(Na foto, o segundo edifício do Liceu, a Casa dos Barões de S. Pedro, actual D.R.A.C.).

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): Os Alunos

Monarquia Constitucional (1837 - 1910):
Os Alunos

Se analisarmos o número de alunos inscritos desde a sua criação 1837 até 1910 podemos constatar um crescimento pouco acentuado, denotando pouco interesse e escassa motivação, quer dos pais, quer dos alunos.

É curioso verificar que nos 74 anos de vigência do Liceu, durante a monarquia, o número de alunos oscilou entre 44, em 1837, e 206 em 1910. No ano lectivo de 1909 -1910 encontramos, pela primeira vez, duas alunas inscritas. A desmotivação e a falta de interesse dos alunos é-nos dada, através de diversas fontes documentais e revelavam-se de diversas formas: altos níveis de reprovação nos exames, ausência dos pais nos diversos actos da escola, actos de indisciplina frequentes.Dez anos após o começo do Liceu, no dia 23 de Novembro de 1847, o reitor comunica ter havido vários distúrbios feitos pelos estudantes, nomeadamente terem “enleado com verga de ferro a porta do pátio das aulas entre o meio dia e uma hora da tarde enquanto funcionavam duas cadeiras; o haverem obstruído com breu os fechos da referida porta e inutilizado a chave da porta dos privados e, finalmente, o haverem desatendido e maltratado o guarda das aulas por várias vezes (...) e terem faltado ao respeito ao professor a maior parte dos alunos da aula de gramática”.7Aquando da realização dos exames em Junho de 1850, o reitor, em tom de mágoa, afirma que às três sessões de exames assistiu o Senhor Conselheiro Governador Civil e ou-tros mais espectadores, contudo sendo muito para notar que nem um só dos pais ou ou-tros superiores dos alunos tenha julgado este acto digno da sua presença. Na sessão solene de 10 de Outubro de 1853, o reitor alerta para a indiferença dos estudantes na realização de exames de algumas disciplinas e conclui ser de “grandíssima conveniência buscar algum meio que despertasse no coração da mocidade escolástica o amor do estudo e o desejo de dar uma prova pública de sua aplicação e aproveitamento.” Como medida de incentivo à frequência do liceu, além da prevista na lei - a preferência de admissão aos empregos públicos conferida aos que tiverem título dos estudos feitos no liceu - propôs que da quantia do orçamento para despesas do expediente se destinasse uma porção para a compra de três medalhas, uma de ouro e duas de prata de modo a premiar os alunos que melhor de distinguissem, não só no aproveitamento escolar, mas também de frequência regular acompanhada de comportamento irrepreensível e exemplar.De entre os alunos, merece realçar Jaime Constantino Moniz que será uma das figuras mais prestigiadas no campo do ensino em Portugal, sendo o autor da mais importante reforma do ensino secundário (1894/95) e em sua memória, o liceu passará a designar-se Liceu Central de Jaime Moniz a partir de 1919, como forma de perpetuar um dos nomes mais notáveis na vida intelectual de Portugal.No ano lectivo 1853-1854, com 16 anos, Jaime Constantino Moniz matriculou-se, como aluno ordinário, para seguir o curso da primeira, segunda e terceira cadeiras, como podemos constatar através do termo de matrícula nº 22.8

Jorge Moreira - Grupo 400
(Na foto, Jaime Constantino Moniz)

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): Os Reitores e os Professores


O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910):
Os Reitores e os Professores



O Decreto de 17 de Outubro instituíu o reitor como órgão de direcção unipessoal, com competências específicas que foram, ao longo do tempo, alteradas e modificadas, tendo como principais requisitos ser um professor do quadro, sem redução de aulas e com uma gratificação.Para se proceder à instalação do liceu e seu funcionamento foi escolhido, com carácter de interinidade, o professor Manuel Joaquim Moniz. No ano seguinte (1838) era nomeado o Dr. Lourenço José Moniz que exerceu as funções até 1850, com enorme dedicação e brio, aliando um brilhante talento a uma notável austeridade de carácter. Foi um dos mais distintos madeirenses da 1ª metade do século XIX. Concluídos no Funchal os estudos preparatórios, seguiu para Inglaterra a fim de matricular-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Edimburgo. Em 1824, foi nomeado professor de uma cadeira de humanidades. Em 1826 foi eleito deputado pela Madeira às Cortes, tendo desempenhado diversas funções político-administrativas. Seguiram-se outros reitores que contribuíram para prestigiar esta instituição.




1837 - 1838 (Interino)Dr. Manuel Joaquim Moniz


1838 - 1850Dr. Lourenço José Moniz


1850 - 1866Prof. Marceliano Ribeiro de Mendonça


1866 - 1881Dr. Francisco de Andrade


1881 - 1910Dr. Nuno Silvestre Teixeira



Jorge Moreira - Grupo 400

(Na foto, Dr. Alberto Figueira Jardim, reitor do Liceu entre 1923 e 1924 e entre 1927 e 1929)

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): Reitores

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910):
Reitores






Durante o período da monarquia constitucional muitos professores, com a sua competência e com o seu elevado nível de desempenho, deixaram marcas profundas na qualidade do ensino ministrado e também contribuíram para o incremento cultural do nosso arquipélago.É de destacar, entre outros importantes vultos do ensino, letras e cultura, o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, ilustre jurista, que regeu, durante 25 anos a cadeira de retórica, poética e literatura, distinguindo-se sempre pela proficiência com que ensinou a sua cadeira, sobre as quais publicou alguns trabalhos de elevado valor científico, que lhe deram direito a ser considerado um dos mais distintos professores do país, na especialidade.Prestou elevadíssimos serviços à causa pública, tendo exercido, durante muitos anos, diversos cargos administrativos. De entre os trabalhos merecem destaque as anotações à importante obra histórica “As Saudades da Terra” de Gaspar Frutuoso, que constituem um precioso repositório da história do nosso arquipélago.O Dr. Francisco de Andrade foi nomeado professor proprietário da cadeira de gramática portuguesa e latina e clássicos portugueses e latinos, no Liceu Nacional do Funchal. Foi autor de “Princípios da Gramática Portuguesa”, publicada em 1844 e da “Gramática Portuguesa das Escolas Primárias”, obra que teve cinco edições. Foi nomeado vereador da Câmara Municipal do Funchal e reitor do Liceu de 1866 a 1881. Foi um dos mais distintos professores que teve o Liceu.




Jorge Moreira - Grupo 400
(Na foto, Lourenço José Moniz)

O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910): Acontecimentos relevantes


O Liceu durante a Monarquia Constitucional (1837 - 1910):
Acontecimentos relevantes


Em 1856, o reitor é informado pelas autoridades administrativas do aparecimento, no dia 4 de Julho, de casos de “cólera morbus” asiática, no batalhão de infantaria que desembarcara nesta cidade, vindo de Belém, onde aquela epidemia grassava, que alguns praças adoeceram daquela moléstia e que, finalmente, começava a lavrar pela cidade. Perante este facto e considerando que o liceu confrontava com o quartel onde se encontrava o referido batalhão de infantaria as autoridades solicitaram ao reitor a interrupção das actividades lectivas, tendo o reitor do seminário oferecido parte das instalações para que os alunos pudessem realizar os exames visto ficar bem longe do foco da peste e de ou-tros pontos da cidade já acometidos dessa doença.9Outro acontecimento relevante para a história do liceu foi a visita de Sua Alteza o Senhor Infante D. Luís, realizada em 11 de Outubro de 1858, acompanhado pelo Governador Civil, tendo o reitor dirigido um breve discurso de congratulação. Sua Alteza o Infante D. Luís, em resposta, manifestou seus desejos de que o ensino prosperasse nesta Ilha da Madeira, passando em seguida uma visita às salas de aula. Em memória de tudo e para que através do tempo constasse tão distinta honra que sua Alteza fez ao Liceu, foi lavrada uma acta que foi assinada pelo ilustre convidado.10A tradição que ainda hoje perdura e que se tornou extensiva a todas as escolas secundárias da Região, a partir dos finais da década de 70, do uso da capa e batina foi concedida pelo Senhor Ministro do Reino em 1889, conforme ofício emitido pela Direcção Geral de Instrução Pública.Em 1901, o Liceu é elevado à categoria de Liceu Central.


Jorge Moreira - Grupo 400
(Na fot, o Infante D. Luís)

O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): O Liceu Central do Funchal como única Instituição do Ensino Secundário


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):


O Liceu Central do Funchal como única Instituição do Ensino Secundário


É no contexto de crescimento da cidade do Funchal, embora limitado pelos condicionalismos da insularidade, fora dos grandes centros de decisão, que se enquadra o Liceu Central do Funchal, como único estabelecimento de instrução secundária, dependente do Ministério do Reino.Por isso, não nos admira que as autoridades, que se encontravam à frente dos destinos da governação, tivessem um carinho muito especial pelo Liceu, reconhecendo o papel de relevo que ele desempenhava na promoção sócio-económica e educacional dos jovens e, também, no enriquecimento cultural das gentes do arquipélago.O prestígio que gozava o Liceu era atestado pelos inúmeros ofícios enviados à Reitoria pelas entidades locais, aquando da tomada de posse, nos quais comunicavam terem assumido determinados cargos e oferecendo a sua colaboração.Verificamos que apresentaram comunicações da tomada de posse Governadores Civis do Distrito, Presidentes da Comissão Administrativa, Comissão Administrativa da Câmara, Juíz do Distrito, Cônsules dos Países Baixos, da Bolívia, dos Estados Unidos do Brasil, Chefe de Repartição de Finanças do e Comissário de Polícia Cívica do Funchal.Importa, ainda, salientar que quando o reitor se dirigia às entidades, solicitando apoios no sentido de atenuar as enormes carências financeiras, referia-se sempre que era um assunto de grande importância para a cidade e exortava os funchalenses para que protegessem o seu primeiro estabelecimento de ensino.11Apesar de todas as vicissitudes, o Liceu Central do Funchal, depois designado de Jaime Moniz, desde 1919 - em homenagem ao madeirense ilustre, antigo Presidente do Conselho Superior de Instrução Pública e autor da Reforma do ensino liceal de 1895 - desempenhou um papel de relevo no domínio da instrução.Como única instituição do ensino secundário no arquipélago era acarinhada e estimada pelas entidades locais, como oportunamente referi. Contribuiu, ao longo de decénios, para alfabetizar e instruir várias gerações de jovens que, ou ficavam na ilha, na sua esmagadora maioria, contribuindo para o seu desenvolvimento sócio-económico e cultural, ou iam para a metrópole cursar Medicina, Direito ou outros cursos.Foi notória a influência da insularidade e consequente isolamento no seu modo de funcionamento: morosidade no equacionamento das situações, provocadas pela escassez de ligações marítimas; carência endémica de docentes profissionalizados, colmatada pelo recurso, quer a militares que por aqui passavam, acidentalmente, em comissão de serviço, quer a licenciados, bacharéis em medicina ou em direito que exerciam a sua profissão nesta cidade; carência de verbas e de material didáctico, denunciadoras do centralismo sufocante do Governo, sediado em Lisboa.Verificou-se também que a instabilidade política do regime republicano afectou, de uma forma muito sensível, o regular funcionamento deste estabelecimento de ensino, apesar da distância, do efeito temperador da insularidade: actos generalizados de indisciplina, mudança constante de reitores, assaltos, arrombamentos do edifício.Em suma, numa ilha bafejada pela amenidade do clima, mas perdida na imensidão do Atlântico, o Liceu do Funchal constituíu um polo dinamizador no incremento sócio-económico e cultural do Arquipélago.

Jorge Moreira - Grupo 400

O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): A figura do Reitor

O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):

A figura do Reitor



Como em todos os Liceus, criados nas capitais de distrito, pelo decreto de 17 de Novembro de 1836, O Liceu Central do Funchal era dirigido pelo reitor. Exercia funções de chefia, com competências específicas era coadjuvado pelo Conselho Escolar de professores efectivos.Durante a Monarquia o reitor era nomeado pelo Ministro da Tutela, podendo em qualquer momento ser exonerado das suas funções. A República trouxe novas perspectivas de participação na vida escolar. Temos conhecimento, através dos livros de actas do Conselho Escolar dos professores efectivos, que na sessão do Conselho de 21 de Outubro de 1910, se procedeu à escolha do reitor, tendo sido eleito, por unanimidade, o professor António Augusto.12No dia 10 de Abril de 1912, o então reitor do Liceu informou o Conselho Escolar que havia recebido, telegraficamente, ordem da Direcção Geral da Instrução Secundária para proceder à eleição do reitor.13Temos, ainda, provas de democraticidade na escolha da figura cimeira da direcção do Liceu, a acta do Conselho Escolar, realizado no dia 13 de Abril, em que o reitor interino propôs que o Conselho elegesse novo reitor, recaindo essa escolha, por unanimidade, no ilustre professor de renome nacional, Dr. Damião Peres.14 A sessão do Conselho Escolar, realizada em 19 de Outubro de 1915, constitui uma prova cabal e elucidativa do modo como era escolhido o reitor do Liceu. “... Propôs o fim da sessão o Sr. Reitor interino pedindo que por escrutínio secreto se procedesse à eleição do novo reitor visto que o Dr. Damião Peres - reitor efectivo deste liceu - fora colocado num liceu de Lisboa...”15É curioso notar que esta tendência de eleição do reitor tende a esbater-se à medida que a República avança no tempo e se envolve cada vez mais na teia das suas contradições. A instabilidade política, gerando insegurança, mal-estar social e tumultos populares, criou condições para o aparecimento de alternativas de cariz totalitário, como, por exemplo, a ditadura de Sidónio Pais e permitiu que o governo central interferisse, de uma forma eficaz, no controlo de nomeação dos dirigentes escolares, nomeadamente dos reitores.


Jorge Moreira - Grupo 400
(Na foto, Alberto Figueira Jardim)

O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): Os Professores


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):


Os Professores


Pelo decreto de 29 de Agosto de 1901, publicado no Diário do Governo com o nº 203, o Liceu do Funchal foi elevado à categoria de Liceu Central, com um quadro legal de 14 professores efectivos. Durante o regime republicano, o número de professores não se alterou substancialmente, oscilando entre 14 e 23.Apesar do número de lugares criado, havia enorme dificuldade no seu preenchimento, atendendo às dificuldades resultantes do isolamento, provocado pela insularidade. Mesmo quando alguns lugares de quadro eram preenchidos, muitas vezes os professores eram destacados, ou em comissão de serviço, ou no exercício de funções políticas, como membros do governo, ou como deputados.Assim se compreende o início tardio do ano lectivo, devido ao recurso frequente de recrutamento de professores provisórios. Por norma, a secção de ciências era a mais afectada pela carência de professores profissionalizados.A acta nº 612 de 14 de Outubro de 1913 diz o seguinte: “... sendo necessário prover-se às vagas na Secção de Ciências deste Liceu”, cinco já existentes nos últimos anos ... 16Como ultrapassar a dificuldade estrutural de carência de docentes profissionalizados?Recorria-se em maior número aos militares que por aqui passavam em comissão de serviço, e que eram recrutados para ministrar as cadeiras de desenho, física experimental, geografia, análise e geometria de ciências matemáticas, ginástica.

Em 18 de Outubro de 1922, o então reitor do Liceu dirigindo-se ao Director Geral do Ensino Secundário, lamentava que o Liceu apenas tivesse seis professores efectivos e dois agregados e que não podiam reger mais do que metade das aulas. Acrescentava, ainda, que pela circular de 2 de Outubro, do mesmo ano, se encontrava inibido de prover o Liceu dos professores provisórios indispensáveis. Solicitava providências urgentes para que os alunos não ficassem sem a regência de grande número de aulas.

Jorge Moreira - Grupo 400
(Na foto, Alberto Artur Sarmento, Capitão de Infantaria e professor de Ciências e de Desenho no Liceu, no ano lectivo de 1916-1917)

O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): Alunos


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):


Alunos


As tentativas de democratização, a todos os níveis, introduzidas pelo regime repu-blicano, possibilitaram um maior acesso dos alunos à escolarização secundária.Se fizermos um estudo comparativo entre o número de alunos que frequentaram o Liceu, nos últimos anos da monarquia e durante a República, verificamos que houve um crescimento acentuado.Durante a Monarquia, o número de alunos oscilou entre 100 e 150, enquanto que, durante a República, ultrapassou o limite de 200, com excepção dos anos lectivos de 1923-24 e 1924-25. No ano lectivo de 1918-19 o número de alunos atingiu a cifra de 370, devido às novas expectativas geradas pelo fim do primeiro conflito à escala mundial.Como explicar este aumento substancial de frequência de alunos? A meu ver, várias causas poderão ajudar a compreender esta tendência para o crescimento. A República trouxe novas perspectivas de promoção das classes sociais mais desfavorecidas e pugnou pela melhoria da instrução e do ensino, sensibilizando a opinião pública para a importância da educação, como um dos factores mais importantes para o desenvolvimento do país.Nos primeiros sete anos do regime republicano, o número de alunos mantém-se estacionário: em 1910 - 1911, o número de alunos era de 232 e em 1916 - 1917, o número era de 238, ou seja, durante este período houve apenas uma ligeira oscilação de 6 alunos. A partir de 1917 -1918 até 1919 - 1920 a frequência dos alunos ultrapassou o limite de 300, com um máximo de 370, em 1918-1919. Uma explicação plausível para este “boom”, poderá ter sido o fim das hostilidades da Primeira Guerra Mundial, gerador de novas oportunidades e o términus do isolamento forçado a que o arquipélago esteve sujeito, imposto pela conjuntura de guerra, e que foi responsável por uma situação de desespero e de falta de confiança num futuro melhor.

Após este impulso de entusiasmo, surgiu, de novo, uma onda de pessimismo provocada pela crise, pela recessão em que mergulhara a “Velha República”De facto, a partir dos anos 20, o número de alunos baixou de uma forma acentuada, chegando a atingir o número de 171 alunos, muito inferior àquele que marca o fim da Monarquia, conforme nos mostra o gráfico III.É de realçar que a generalização da entrada de alunas no Liceu do Funchal, iniciou-se com a implementação do regime republicano. Podemos observar esta tendência através do quadro III. Verificamos que as flutuações, quanto à frequência dos alunos, número total, e a frequência de alunas, é semelhante.

Qual a proveniência dos alunos que frequentavam o Liceu? Qual era o afluxo dos jovens das zonas rurais à instrução secundária?Após uma análise aturada e exaustiva, concluí que a grande maioria provinha da zona urbana, devido às melhores condições de vida, à proximidade e ao maior grau de cultura das gentes que viviam na urbe, com uma percentagem que oscilava entre 65% e 70%. As zonas rurais detinham uma percentagem variável, entre 25% e 27%, compreensível se tivermos em conta as enormes dificuldades, quer de acessos (quase inexistência de rede viária) , quer ao nível dos recursos financeiros que eram parcos. Do exterior, quer da metrópole, quer das colónias, quer das zonas tradicionais de emigração madeirense, provinham alunos que normalmente acompanhavam os pais que, ora eram destacados em comissões de serviço, como militares, entidades governativas ou chefias, ora regressavam à terra natal, após uma ausência, mais ou menos prolongada, como emigrantes, à procura de uma vida melhor. É curioso verificar que, apesar de a Madeira ser uma ilha pequena, tinha filhos seus, em terras longínquas: Demerara (Guiana Inglesa, zona de grande incidência emigratória no séc. XIX, devido à forte presença inglesa na Ilha e devido à sua economia estar, fortemente dependente da cana sacarina, actividade familiar dos madeirenses), Paramaribo (Guiana Holandesa), Rio de Janeiro, Santos, Pará, Belém (Brasil), S. Antão, Tarrafal, Praia (Cabo Verde), Ilha Trinidad (Antilhas Holandesas), Ambriz, Lubango, Benguela, Luanda, (Angola), Zambézia, Lourenço Marques, Quelimane (Moçambique), S. Tomé, Açores.Da metrópole vinham alunos de todos os distritos, sendo a maioria de Lisboa. Acompanhavam os seus familiares que para aqui se deslocavam, temporariamente, em comissão de serviço.

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O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): A disciplina: infracções e penas


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):
A disciplina: infracções e penas


A implementação do regime republicano trouxe consigo uma maior abertura e to-lerância na vida escolar. No entanto, esta nova atitude, aliada, com o andar dos tempos, à instabilidade política repercutiu-se no normal funcionamento das actividades lectivas. Pude constatar, através dos diversos documentos a que tive acesso, que existiu uma correlação muito estreita entre a instabilidade política provocada pelo regime republicano e o nível, quase permanente, de actos de indisciplina, desordem e de agitação que atingiu o Liceu, durante esse período, e que se reflectiu em possíveis actos de recusa contra o regime, por parte de docentes, actos de recusa de autoridade, por parte de funcionários (acto de insubordinação do guarda do Liceu contra um professor19) e ainda em actos de indisciplina generalizados, por parte dos alunos. A mudança de regime, passagem de um regime monárquico autoritário para um regime republicano de cariz democrático, a instabilidade sócio-política, o descontentamento generalizado que a República não soube ou foi incapaz de conter, poderão ajudar a compreender esta onda de indisciplina.Podemos, de uma forma sucinta, caracterizar os principais actos de infracção: Arrombamentos das portas e roubo de livros de ponto; rasuras das faltas dos alunos nos livros de ponto; agressões, quer a alunos, quer a professores; impedimento no acesso dos alunos às salas de aula; saída conjunta ou individual das salas de aula; ausência em bloco dos alunos às aulas “parede”; injúrias; prática de obscenidades; escrever palavras obscenas e condutas desregradas; gritaria imitando buzinas na sala de aulas; insultos e vexa- mes aos professores; danos causados no edifício; perturbações ao trânsito nas ruas e distúrbios da ordem pública; comportamentos indecorosos, enfim, um rol de actos de indisciplina que seria difícil de se encontrar na nossa escola actual.Que meios foram encontrados, pelos responsáveis de então, para combater estas infracções, esta onda de indisciplina generalizada?Utilizando a máxima “para grandes males, grandes remédios”, os responsáveis do Liceu, com base nas normas legais, então vigentes, tentaram encontrar as melhores soluções para equacionar este grave problema. Não nos podemos esquecer que, apesar da rigidez e do rigor na aplicação das penas, havia um clima propício a uma maior tolerância e compreensão na tentativa de resolução destes problemas. Apesar disso, verificamos que a terminologia usada aquando da aplicação das sanções aos alunos - condenado, julgado, denota um tratamento pouco adequado a jovens estudantes, tratando-os como se fossem cri-minosos vulgares e não adolescentes irrequietos e irreverentes. Pela análise das fontes documentais pudemos verificar que a tipologia das penas variava, indo da simples repreensão verbal ou escrita, até à pena máxima (exclusão de todos os Liceus do País).

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O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): Abertura das aulas


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):
Abertura das aulas


De acordo com o quadro IV, a abertura das aulas do Liceu verificava-se, em regra, no mês de Outubro, oscilando entre os dias 9 e 23.As razões invocadas pelos reitores para a abertura tardia das aulas eram, de um modo geral, a realização de exames de 2ª época, durante o mês de Setembro e inícios de Outubro e o afluxo elevado de alunos que realizavam provas de exame no referido período.O início de um novo ano lectivo era sempre um acontecimento importante. Havia uma cerimónia de abertura das aulas, com uma sessão solene em que eram convidados as diversas entidades da governação do arquipélago, os familiares dos alunos e os alunos.No início da sessão solene, o reitor distribuía diplomas de honra aos alunos mais aplicados e com melhor comportamento e, em seguida, o reitor ou um professor escolhido pelo Conselho Escolar, proferia uma oração de sapiência, através da qual tentava sensibilizar a assistência presente para as vantagens da instrução e a felicidade que ela dá a quem sabe aproveitar os seus benefícios20. Incitava os alunos para que fossem estudantes aplicados, sugerindo o exemplo dos seus colegas distintos21 e apelava para a colaboração das entidades presentes e da família22.Em certas ocasiões, aproveitava-se a sessão solene para desferir algumas críticas ao sistema de ensino e lamentava-se o atraso em que, infelizmente, se achava a instrução em Portugal.


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O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): As instalações do Liceu e as dificuldades financeiras


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):


As instalações do Liceu e as dificuldades financeiras



Em 1881 o Liceu passou para a Casa do Barão de S. Pedro, quase no fim da Rua dos Ferreiros24.Melhorou alguma coisa com a mudança, visto que o primeiro edifício apenas era composto de três salas de aula. No entanto o novo edifício, apesar de ser maior, continuava a ser uma casa velhíssima e com péssimas condições higiénicas25. Em 23 de Outubro de 1913, o reitor informava o Director Geral de Instrução Secundária Superior e Especial de já ter feito sentir, por diversas vezes, ao Governador Civil do Distrito, a imperiosa necessidade da mudança do edifício do Liceu, dadas as más condições pedagógicas. Sugeria, ainda, que essa mudança fosse feita para o antigo Paço Episcopal, edifício amplo e bem situado e alertava para que fossem tomadas as devidas providências, no sentido de se efectuar reparos importantes, cujo custo podia calcular-se “grosso modo” em uns seis a sete contos de reis26. Após aturadas negociações, o Reitor tomou posse do Paço Episcopal e através de um telegrama enviado à Direcção Geral de Instrução Secundária27, no dia 13 de Dezembro do ano 1913, foi efectuada a mudança para as novas instalações, nas férias de Natal. No entanto, deviam ter-se realizado vários melhoramentos importantes para que a adaptação se fizesse em condições, mas faltou o dinheiro do Estado, faltou o dinheiro prometido pela Junta Geral. O Novo edifício, apesar de ter maior número de salas de aulas, continuava a não possuir as condições mínimas para uma verdadeira escola de instrução secundária.A problemática das instalações perpassa todo o regime republicano, agravada pelo desgaste, pela topografia do edifício (rés-do-chão e quatro andares) e pela número crescente de jovens que pretendiam adquirir formação secundária ou superior.Em 1922, novamente, o reitor dirigindo-se ao Presidente do Senado Municipal do Funchal, denunciava as enormes dificuldades que o liceu então atravessava devido à precaridade das suas instalações, escassez de pessoal menor e carência de meios financeiros. “Este Liceu recebe do Estado uma verba verdadeiramente mesquinha em relação às suas múltiplas necessidades, verba que mal chega para o expediente e pequenas beneficiações no edifício. Alguns laboratórios estão ainda em embrião e outros, embora dotados dalgum material estão muito longe de possuir o indispensável. E como V. Exa. sabe, sem o material didáctico necessário não pode haver ensino verdadeiramente profícuo. Mas além dos interesses da instrução, há outros que também afectam directamente o bom nome desta cidade. Os estrangeiros que frequentemente nos visitam, designadamente alguns pertencentes a missões científicas, por vezes vêm ao liceu, e V. Exa. compreende quanto é ve-xatório para todos nós patentear-lhes a penúria do primeiro estabelecimento de instrução pública da cidade. (...)28O estado de penúria era tão evidente, em instalações laboratoriais, que em termos comparativos com os liceus do continente, o nosso liceu jamais poderia igualar-se. “... com os outros Liceus do país que têm excelentes laboratórios e podem, consequentemente, dar aos seus alunos uma melhor preparação. Não se julgue que são poucos os Liceus em boas condições no que respeita a material de ensino: os cinco liceus de Lisboa, três do Porto e o de Braga têm laboratórios que na maior parte chegam a ser opulentos; os de Santarém, Viseu e Aveiro, pelo menos, têm explêndidas instalações. E os restantes liceus do país estão em melhores condições que o nosso...”29Este lamento era revelador do abandono e falta de atenção do poder central em relação aos assuntos desta ilha.Para suprir as enormes carências com que se debatia, o Liceu lançava mão a diversos expedientes: solicitava apoio às entidades governamentais do arquipélago, nomeadamente à Junta Geral do Distrito e à Câmara Municipal do Funchal que todos os anos concediam subsídios imprescindíveis ao funcionamento desta prestigiada instituição de ensino.


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O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926): Acontecimentos relevantes


O LICEU DURANTE A REPÚBLICA (1910 – 1926):
Acontecimentos relevantes


Em Maio de 1910 dão-se graves incidentes, com diversas infracções da disciplina escolar, tumultos que ficaram conhecidos pelos do Padre Botelho, visto que foram dirigidos contra o professor Padre António Ferreira Botelho.A partir de 1919 e por efeito do Decreto nº 5096 de 7 de Janeiro, o Liceu Central do Funchal passou a denominar-se Liceu Central de Jaime Moniz, em memória do ilustre madeirense Jaime Constantino Moniz.

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(Na foto, Jaime Constantino Moniz)

O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974): Actividades circum - escolares


O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974):


Actividades circum - escolares



Durante o Estado Novo organizam-se um conjunto de actividades que procuram complementar as actividades curriculares. A construção do novo edifício, modelar para a época, possuindo espaços para a prática de actividades desportivas e de lazer, salas de desenho, trabalhos manuais, de canto coral, ginásio e salão de festas e campo de futebol, de ténis, tanques para a instrução de remo, “ring” de patinagem, campo de voleibol, campo de basquetebol permitiu a realização de um conjunto de actividades extracurriculares que veio valorizar o ensino e incentivar os jovens para uma maior escolarização.Durante este período florescem as sessões de cinema escolar, de teatro, as exposições de trabalhos de desenho, de lavores, de fotografias de passeios e visitas de estudo, ampliadas e reveladas pelos professores e alunos no gabinete de fotografia do liceu.



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O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974): Alunos


O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974):


Alunos


O derrube da República Democrática e a instauração da nova ordem política, com a Revolução de 28 de Maio de 1926, trouxe ao país uma maior estabilidade sócio-política que se reflectiu numa fase de crescimento do número de alunos inscritos, atingindo o valor de 457, em 1931. Contudo esta tendência de crescimento foi inflectida, a partir de 1936, devido à crise internacional e à guerra civil de Espanha, atingindo um número mínimo de 237, em plena 2ª Guerra Mundial (1940/1941).O fim da 2º Guerra Mundial e a nova conjuntura internacional que se caracteriza por uma fase de reconstrução e de crescimento da economia mundial trouxe novas perspectivas de confiança e de paz.Verifica-se uma tendência longa de crescimento que se inicia em 1945/46, com um número recorde de alunos inscritos (554) e que atingirá o limite máximo no ano que antecede a revolução de 25 de Abril de 1974 (2819), devido às reformas encetadas no final do regime, conhecida como a Reforma de Veiga Simão que inicia o processo de democratização do ensino.

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(Na foto, Coronel Ramiro Morna do Nascimento, no ano em que entrou para o Liceu)

O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974): Professores


O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974):


Professores


O número de professores durante este período permanece mais ou menos cons-tante, com ligeiras alterações, variando entre 20 e 35. Eram na sua maioria de sexo masculino e uma grande parte eram efectivos, mantendo, no entanto, uma percentagem de professores provisórios que variava entre 25% a 50%.


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(Na foto, Horácio Bento de Gouveia, professor de Português e Latim no Liceu do Funchal em 1946)




O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974): Os Reitores


O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974):
Os Reitores

Durante o Estado Novo, a figura do reitor adquire uma maior importância na gestão e administração escolar, sendo nomeado pelo Governo Central e, de um modo geral, mantém-se durante largos anos.Neste período, o reitor Dr. Ângelo Augusto da Silva desempenha um papel relevante, não só como o mentor e o grande dinamizador da construção do novo edifício, mas também como uma grande referência na liderança de uma grande escola.A sua permanência à frente dos destinos do liceu foi longa (36 anos) e deixou uma marca de grande pedagogo e de grande dirigente. O quadro dá-nos uma perspectiva cronológica dos reitores que lideraram o Liceu durante o Estado Novo.

1926 - 1927 Dr. Joaquim Carlos de Sousa
1927 -1929 Dr. Alberto Figueira Jardim
1929 - 1930 Dr. António Luís Franco
1930 - 1966 Dr. Ângelo Augusto da Silva (na foto)
1967 - 1973 Dr. André Manuel C. Cymbron B. de Sousa
1973 - 1974 Dr. Jorge Filipe Garcês de Atouguia

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O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974): As instalações


O Liceu durante o Estado Novo (1926 - 1974):
As instalações


Apesar de a partir das férias de Natal de 1913 o liceu ser transferido para o velho palácio episcopal, tendo algumas salas boas, nunca pôde ser encarado como susceptível de se transformar numa boa escola de ensino secundário. Localizava-se numa zona de comércio, por isso movimentada e barulhenta e os terrenos contíguos eram insuficientes para os recreios e recintos desportivos. Além disso, o liceu, para dar resposta às diversas exigências dos serviços, tinha de aproveitar todos os espaços de difícil acesso, situadas num 4º andar para as aulas experimentais e práticas de química e de alugar salas nos prédios vizinhos. Não admira que fosse preocupação constante de todos os reitores e do pessoal docente a procura de uma solução que fosse a definitiva construção de um edifício de raiz.Com o andar do tempo, o velho edifício poucas ou nenhumas condições tinha para a instalação dos serviços do liceu e, lentamente, foram piorando devido ao aumento de frequência. No ano lectivo de 1931-1932, uma comissão de médicos, após uma aturada inspecção, dá o liceu como “impróprio, sendo urgente uma mudança para um edifício devi-damente adequado a tal fim, sob pena de graves prejuízos para a saúde de professores e alunos”. Mais tarde a Junta de Higiene do Concelho do Funchal condena-o também.Em 1933, a Junta Geral do Funchal encarrega uma comissão, constituída pelo reitor do Liceu, Dr. Ângelo Augusto da Silva, pelo Director das Obras Públicas da Junta Geral, Eng. Abel Vieira e pelo Médico Escolar do Liceu, Dr. William Clode, de indicar terrenos para a construção do novo edifício do Liceu. No dia 26 de Setembro a referida comissão reuniu- -se e resolveu, em primeiro lugar, indicar para a presidência o reitor do Liceu e o chefe de secretaria para o cargo de secretário da Comissão. Por proposta do Presidente foram aprovadas as seguintes propostas:1. Que faça parte da Comissão um vogal da Comissão Administrativa da Junta Geral;2. Que seja agregada à Comissão o arquitecto Edmundo Tavares, professor da Escola Industrial do Funchal;3. Que num dos próximos dias se proceda à visita dos terrenos a estudar;4. Que se publique nos jornais um convite, pedindo às pessoas que possuam terrenos de mais de 12.000 metros quadrados, dentro da área da cidade e queiram vender, a apresentar na Reitoria do Liceu as suas propostas.” O papel desta Comissão foi de extrema importância para o apressar de uma verdadeira solução. No entanto, antes da decisão definitiva, a Comissão escolheu um terreno, situado nos Ilhéus, tendo mandado organizar o respectivo anteprojecto e enviado a instâncias superiores um relatório sobre o assunto. Contudo, só em 5 de Dezembro de 1936, o Estado, pelo Decreto nº 26.983, cede o terreno do Hospital Militar à Junta Geral para a construção do Liceu.Conseguido o objectivo fundamental da aquisição de um terreno, a Junta obteve várias facilidades e tomou as medidas necessárias de modo a adjudicar, em Maio de 1940, pela quantia de 4.815.000$00 a empreitada do edifício, com excepção das janelas, à firma Pereira Camacho. O projecto foi elaborado pelo arquitecto Edmundo Tavares, tendo o Eng. Abel da Silva Vieira sido o responsável pelos cálculos e direcção técnica dos trabalhos.As obras de construção do edifício iniciaram-se em Julho de 1940 e decorreram até 1946, ano em que se procedeu à inauguração oficial com a presença de altas individualidades nacionais e regionais. Em 1942 teve de ser adquirido mais terreno, através de novos prédios expropriados, e fez-se a adjudicação a outra firma dos primeiros e mais importantes trabalhos para a construção do campo de jogos.A abertura solene do ano lectivo 1942-1943 foi realizada no dia 7 de Outubro no velho Palácio Episcopal situado à Rua do Bispo e no dia 8 do mesmo mês, e “ainda com muitas obras em curso”, davam-se as primeiras aulas no novo edifício. Havia muitas obras a fazer nos gabinetes – física, química e ciências naturais e nas salas de trabalhos manuais e de desenho e encontrava-se longe do fim a construção do corpo destinado à educação física, à cantina e ao balneário; faltava ainda ultimar os recreios e outros espaços desportivos.


Jorge Moreira - Grupo 400

O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003): As instalações


O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003):
As instalações

A Revolução de 25 de Abril e a conquista da Autonomia generalizou o acesso à educação. Foram criados os cursos nocturnos para os trabalhadores-estudantes. As instalações tornaram-se exíguas e houve necessidade de recurso a anexos para dar resposta a esta onda de massificação. Assim, surgiram o anexo das Mercês (Actual Escola Básica das Mercês) e o anexo da Encarnação, (Antigo Seminário Menor), que foi ocupado de uma forma violenta.Em 1976 o Governo arrendou o edifício “Girassol”, junto ao Mercado dos Lavradores, onde foram instaladas as áreas das letras e de economia, ficando a ser conhecido pelo anexo do “Girassol” até 1996, ano em que foi entregue ao proprietário. O local onde estava localizado, mercado dos lavradores e praça do peixe, em plena zona de comércio tornava-a barulhento, as salas de aula distribuídas por três andares, os acessos demasiado estreitos, a existência de uma loja de ferragens, com substâncias inflamáveis, foram motivos para que os responsáveis pela gestão e administração do Liceu fizessem diversas exposições aos responsáveis políticos para que fosse encontrada uma solução que melhor salvaguardasse a segurança dos alunos, professores e funcionários.Após diversas diligências, consegui, como presidente do Conselho Directivo, a posse do edifício do antigo magistério primário, que foi totalmente remodelado, mantendo a traça regional. Contíguo a este prédio foi construído um novo edifício de raiz, moderno, com muita luminosidade e com comunicação interna. Aqui foram instaladas as turmas do 12º ano de todos os agrupamentos, devido a existência de excelentes laboratórios e de outros espaços, em nada comparáveis com as anteriores instalações.

Jorge Moreira - Grupo 400

O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003): Professores/Funcionários


O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003):


Professores/Funcionários


O aumento exponencial dos alunos, verificado com a implementação da Autonomia, as mudanças curriculares, com a introdução de novas disciplinas, as novas e complexas tarefas da educação, permitiram um aumento bastante considerável do número de professores e de funcionários.De uma centena de professores e de três dezenas de funcionários em 1974, a Escola Secundária Jaime Moniz, em 2003, passou a ter 314 professores e 140 funcionários.A composição do pessoal docente também sofreu uma considerável alteração. Nos períodos anteriores à democracia, o elemento do sexo masculino predominava. Hoje, 80% dos professores são do sexo feminino.No que toca à situação profissional dos professores podemos constatar que dos 314 docentes, 271 são professores do quadro de nomeação definitiva, ou seja 86,3%, ficando, apenas, 13,7% para professores contratados ( professores profissionalizados, estagiários e não profissionalizados). Do mesmo modo, podemos verificar que a totalidade dos docentes são habilitados: 2 professores doutorados, 21 mestres, 288 licenciados e 5 bacharéis.

Jorge Moreira

O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003): Alunos


O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003):
Alunos

A democratização do ensino trouxe profundas mudanças quanto ao modo e forma de funcionamento do Liceu. De início, como já referi, devido ao aumento exponencial dos alunos, houve a necessidade de encontrar novos espaços (Anexos). Para permitir a frequência dos trabalhadores-estudantes foram abertos os cursos no-cturnos, a partir de 1976. Podemos afirmar que os anos 70 e 80 foram os anos da massificação do ensino, em que a quantidade prevaleceu em desfavor da qualidade. Em 1990/91 o número de alunos atingiu a valor máximo de 5967.A partir dos anos 90, com a criação de novas escolas em todos os concelhos da Região e por motivos de ordem pedagógica, a tendência de crescimento inverteu-se. Em 2003 o número de alunos é de 2664. Contudo, continuamos a ser a maior escola de Região e a frequência dos alunos é extensiva a 40 das 52 freguesias.

Jorge Moreira - Grupo 400

O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003): Acontecimentos relevantes


O LICEU NO PERÍODO DA DEMOCRACIA/AUTONOMIA (1974-2003):
Acontecimentos relevantes

Em 1980 o Liceu passou a ser designado por Escola Secundária Jaime Moniz.O Grupo de teatro “O Moniz” surgiu em 1990 tendo contribuído para sensibilizar e dinamizar os jovens para a arte cénica.No dia 6 de Outubro de 1992, a escola celebrou o 50º aniversário do actual edifício, tendo-se realizado uma sessão comemorativa com a presença do Presidente do Governo Regional e uma exposição documental e fotográfica sobre o nosso rico património histórico e cultural. Como forma de homenagear uma escola de referência, o Governo Regional, pela Resolução nº 995/92, concedeu a Medalha Regional de Bons Serviços à causa da Educação.Em 1993, teve início o Festival Regional de Teatro Escolar, tendo-se realizado, no presente ano (2007), a XV edição.A partir de 1995, a Escola tem dinamizado um conjunto de actividades culturais, nomeadamente a Feira do Livro e a Semana dos Clubes. Nos últimos anos têm sido convidadas ilustres figuras ligadas à política, à cultura, às letras e às artes.O Ministro de Educação, Prof. Marçal Grilo, em Maio de 1996, honrou-nos com a sua visita, acompanhado pelo Secretário Regional da Educação, Dr. Francisco Santos.Em 2002 o Nobel da Literatura, José Saramago, visitou a nossa Escola, proferindo uma conferência e assinando o livro de honra. No dia 17 de Dezembro de 2002, com a presença do Senhor Presidente do Governo Regional, Dr. Alberto João Jardim e do Senhor Secretário Regional de Educação, Dr. Francisco Fernandes, a Escola celebrou os 60 anos do actual edifício e 165 anos da criação do Liceu do Funchal. Procedeu-se à inauguração de um conjunto de seis painéis documentais e fotográficos, em que se percorre 165 anos da nossa gesta colectiva.Após o almoço, o Presidente do Governo Regional, ex-aluno do Liceu, referindo-se à nossa Escola, disse: “O Liceu Jaime Moniz passou pelas várias vissicitudes que abalaram a educação em Portugal, mas sempre passou com o prestígio e a qualidade do seu ensino.”

Jorge Moreira - Grupo 400

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os Sindicatos dos Professores


Viva!

Em relação à carta aberta ao Primeiro-Ministro, feita pelas organizações sindicais dos professores, a 16 de Outubro de 2007, deixo aqui o meu reparo, em relação ao primeiro parágrafo, onde se fala da independência dos sindicatos dos professores.Não conheço nenhum sindicato de professores que seja 100% independente, repito: Não conheço nenhum sindicato de professores que seja 100% independente!O que é um sindicato independente?É o sindicato que depende unicamente dos sócios e trabalha unicamente para os sócios. No caso dos sindicatos dos professores, quem paga o salário aos dirigentes desses sindicatos? A resposta, para quem não sabe, é que quem paga o salário dos dirigentes sindicais, que estão destacados nos sindicatos, é o GO-VERNO! Logo, os sindicatos são DEPENDENTES financeiramente DO GOVERNO. Os salários deveriam ser pagos através das quotas pagas pelos sócios, o que significa que, possivelmente, haveria menos sindicatos e menos professores destacados nos sindicatos e, possivelmente, os sindicatos fariam mais alguma coisa pelos sócios... Como eram os sócios a pagar, os dirigentes pensavam mais nos sócios (na sua fonte de rendimento) e defendiam os interesses dos sócios e não outros interesses. Não sei porquê, mas tenho a ideia de que alguns dirigentes sindicais são dirigentes, possivelmente, porque não querem ser professores! Mas eles fizeram formação via ensino ou via sindical?Alguns sindicatos falam mais quando o governo é de um partido e outros sindicatos falam mais quando o governo é de outro partido. Porque será?Acho que os dirigentes sindicais não deveriam estar à frente do sindicato mais de 3 mandatos, obrigando os professores, dirigentes sindicais, a voltarem à escola. Muitos deixam o sindicalismo, não porque se reformaram como sindicalistas, mas porque se reformaram como professores (parece piada...). Para quem não me conhece, informo que também já fui dirigente sindical mas nunca deixei de ser professor! Acho que se realmente alguém quer fazer alguma coisa pelos professores, pense primeiro nos professores! Acho que a situação atrás referida é um exemplo a seguir de modo a criar credibilidade dos sindicatos junto dos sócios e do governo! Os sindicatos estão como estão, porque não são entidades completamente independentes e autónomas!
Mas estamos no país dos adormecidos?


António Freitas - Grupo 520

Ilha Paradisíaca...


Benditos os mosquitos! Por causa deles vamos ter jardins em vez de matas!


Era uma vez uns mosquitos que nasceram num local muito longe de casa. Tão longe que não sabiam onde estavam. Inicialmente pensavam que estavam numa igreja ou numa local santo, pois eram chamados, mosquitos de Santa Luzia!Alguns até pensavam que eram santos... As fêmeas pensavam que eram santas e que o seu nome era Luzia.Estavam num local estranho com condições óptimas para o seu desenvolvimento Tinham água, sangue quente, temperatura ambiente óptima, entre outras coisas.Numa tarde, os mosquitos resolveram fazer uma reunião, de modo a perceberem o que se estava a passar. Será que estavam mortos? Estavam no paraíso? Será que estavam vivos? Se sim, como vieram ali parar?Após uma intensa discussão, concluíram que estavam vivos!Mas por que razão estavam tão longe de casa? Num sítio tão longe e com condições paradisíacas?O avô mosquito, já com 5 semanas de vida, coisa não muito frequente entre os mosquitos, pois a maioria vive entre 2 a 3 sema-nas, disse:

- Meu filhos, as árvores que tinham as nossas casas foram arrancadas e trazidas até aqui. Pensei que era o fim do mundo... No momento não sabia o que fazer, acompanhei-vos na esperança de vos proteger. Durante a viagem, ouvi que vínhamos para aqui, fiquei logo triste, porque pensei que as plantas iam sofrer um processo de quarentena e íamos ser descobertos...Lembrei-me logo de uma polémica que ocorreu em torno de umas cicas trazidas por um madeirense que viveu na África do Sul. Como se sabe em alguns locais não é permitida a entrada de plantas exóticas. Ia ser o nosso fim!

O neto mais novo, ainda com 3 dias de vida perguntou:

- Mas avô, ninguém se lembrou de fazer a quarentena às plantas? Pois toda a gente sabe, até nós os mosquitos, que desde 1960, sempre que se leva plantas de uma região para outra, devem fazer a quarentena dessas plantas por causa da propagação das pragas.

- Meu filho - disse o avô mosquito - tinham pressa, se fizessem a quarentena às plantas, isto demoraria quarenta dias, pelo menos....

- Avô - perguntou o neto - mas neste momento as pessoas já sabem que nós estamos aqui... a culpa morreu solteira? Alguém é obrigado a pagar uma indemnização às pessoas que têm implicações graves devido às nossas picadas?

- Meu filho - disse o avô - em certos locais tudo é mais fácil que no continente onde estávamos. Manda-se as pessoas não terem água nas flores mas não secam os lagos que têm nos jardins.
- E as pessoas o que dizem / fazem? - perguntou o neto.

- !!!!!........



António Freitas - Grupo 520

Testemunhos do Liceu: Paulo Silva


Espaço multicultural mas, sobretudo, testemunha do processo de socialização e de vida, a Escola assume um papel incontornável na vida de todos nós. Revivemo-lo nas conversas do quotidiano, actualizando episódios pitorescos, eternizando espaços, personagens e modos de aprender e ensinar…É da escola que temos cada vez mais saudade, passado o tempo do estudo e da alegre camaradagem, o que nos faz sentir, como o poeta, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”O Liceu orgulha-se de ser esse espaço extraordinário de vivências e emoções de milhares de estudantes madeirenses. Quem são? Que recordam?

Nome: Paulo Silva
Idade: 45 anos
Profissão: Funcionário da Comissão Europeia, Direcção Geral do Mercado Interno
Área de formação: Direito

O Lyceu – Diz-se Liceu, vem a saudade. Que importância teve o Liceu na sua vida?

Paulo Silva – Constato que na pergunta se designa a Escola Secundária Jaime Moniz por Liceu que é também a designação que continuo a utilizar para me referir a esta "casa" tantos anos após dela ter saído. Cheguei ao Liceu em 1975, ou seja um ano após o 25 de Abril e portanto em pleno Processo Revolucionário em Curso (PREC). Desta forma, uma passagem que já de si seria inolvidável tornou-se marcante na minha vida pelos momentos extraordinários vividos, pelas amizades realizadas e pelos professores que tive.

O Lyceu – O que mais o marcou durante os anos de frequência do Liceu?

Paulo Silva – As pessoas (colegas e professores) são sem dúvida aquilo que mais me marcou na minha passagem pelo Liceu. Fiz grandes amigos e tive excelentes professores: uns e outros ajudaram-me a construir aquilo que hoje sou. No entanto, os espaços não foram de somenos importância, uma vez que tive o privilégio de conhecer muitos e variados: para além do Liceu tive aulas no Seminário e no antigo edifico Girassol. Embora as condições de ensino nem sempre fossem as melhores, fizemos sempre o melhor que podíamos nas circunstâncias que foram as nossas.

O Lyceu – Como vê a Educação hoje?

Paulo Silva – A Educação hoje (como sempre aliás) constitui o factor mais importante de desenvolvimento de um país. Uma Educação entendida num sentido amplo, não apenas como mero veículo de transmissão de conhecimentos mas também de valores e de experiências. Constato com preocupação que, apesar de se falar muito na importância da Educação em Portugal, as taxas de abandono escolar assim como os níveis de ili-teracia existentes no nosso país continuam a ser muito elevados o que não constitui um bom prenúncio para o futuro. Contudo, há também que salientar que uma parte crescente das novas gerações consegue hoje atingir níveis educativos nunca antes verificados, o que lhes poderá garantir uma realização profissional e pessoal no quadro desta nossa sociedade globalizada.

O Lyceu – Na sua opinião, de que modo as novas tecnologias são uma mais valiapara a aprendizagem do aluno?

Paulo Silva – A importância das novas tecnologias em especial da informação e da comunicação na educação pode resumir-se a dois pontos fundamentais:1 - A redução dos custos de acesso à informação: o world wide web colocou ao dispor de qualquer pessoa equipada com um computador ligado à internet um manancial quase inesgotável de informação, entendida esta num sentido amplo que abrange desde os textos e as fotos até à música e os vídeos. Portanto, um estudante que queira elaborar um trabalho (inclusive multimédia) sobre um determinado tema dispõe hoje, de uma multiplicidade de fontes de informação a custo quase nulo. Ainda há não muito tempo atrás, o mesmo trabalho estaria limitado ao espólio das bibliotecas, públicas ou privadas, e das livrarias regionais ou seja um universo informacional bastante limitado e potencialmente mais oneroso. A realidade actual coloca, contudo, problemas de outra natureza tais como o da gestão da informação.2 - A gestão da informação: a pesquisa da informação mais relevante sobre um determinado assunto, o controlo da qualidade da informação obtida, a verificação das fontes, a existência de direitos de autor sobre a mesma são problemas com os quais nos confrontamos sempre que procuramos aceder à informação disponível na net. A ironia desta situação é que o acesso consciente e responsável a um mais amplo universo informacional pressupõe hoje um número mais elevado de conhecimentos do que no passado: é necessário saber utilizar os sites de pesquisa como o google de uma maneira eficaz que nos permita seleccionar os dados mais relevantes no mais curto espaço de tempo, é indispensável saber distinguir a informação do ruído e da desinformação existentes na "net", é importante saber relacionar os dados obtidos com vista a gerar novo conhecimento e até pode ser importante, numa perspectiva de inovação comum ao web 2.0, de controlar as técnicas de "mashup" ou seja a criação/utilização de instrumentos baseados na Web combinando dados de fontes e natureza diversa com vista à produção de novos conjuntos dotados de sentido.

Micaela Martins - Grupo 300

Testemunhos do Liceu: Margarida Morna


Espaço multicultural mas, sobretudo, testemunha do processo de socialização e de vida, a Escola assume um papel incontornável na vida de todos nós. Revivemo-lo nas conversas do quotidiano, actualizando episódios pitorescos, eternizando espaços, personagens e modos de aprender e ensinar…É da escola que temos cada vez mais saudade, passado o tempo do estudo e da alegre camaradagem, o que nos faz sentir, como o poeta, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”O Liceu orgulha-se de ser esse espaço extraordinário de vivências e emoções de milhares de estudantes madeirenses. Quem são? Que recordam?

Nome: Dra Margarida Morna Nascimento
Idade: 78 Anos
Profissão: ProfessoraÁrea de formação: Filologia Clássica, Curso de Ciências Pedagógicas

O Lyceu – Diz-se Liceu, vem a saudade. Que importância teve o Liceu na sua vida?


Margarida Morna – A minha vida é o Liceu.

O Lyceu – O que mais a marcou durante os anos de frequência do Liceu?

Margarida Morna – Quando chegámos à Escola, nós, as alunas externas, sentíamo-nos um pouco esmagadas pela superioridade das internas. Isso durou cerca de um mês. Pouco depois, já estávamos em casa. Ainda no ano passado, fui visitar, a Setúbal, a Dra. Elda Lages, que foi minha professora no 6º ano e é uma pessoa que me é muito querida.No 7º Ano, éramos uns onze alunos, rapazes e raparigas. Nesta Escola, as turmas do 3º Ciclo eram mistas. Dávamo-nos todos muito bem. Uma das minhas melhores amigas da época foi a Dra. Cecília Farias, que me acompanhou no meu percurso académico, no Curso de Filologia Clássica.

O Lyceu – Como vê a Educação hoje?

Margarida Morna – Vejo imensas possibilidades, em termos de Comunicação, para formar anjos ou demónios.

O Lyceu – Na sua opinião, de que modo as novas tecnologias são uma mais valiapara a aprendizagem do aluno?

Margarida Morna – Deixei de dar aulas em 1980, quando fui nomeada Directora Regional do Ensino, uma tarefa ingente.Portanto, nem sei funcionar com um computador, atendendo a que estes surgiram precisamente nesta década, a de 80. Tenciono, porém, ter aulas de Informática em breve.Haja o que houver, julgo que o professor jamais deverá abandonar o seu estudo permanente para preparação das aulas.Julgo, inclusive, que as novas tecnologias, após uma revisão curricular que promovesse o ensino das línguas clássicas, o Grego e o Latim, como estruturas base da aprendizagem das línguas matriciais da Europa, devem servir para aproximar os alunos dessas mesmas línguas.

Micaela Martins - Grupo 300

Testemunhos do Liceu: João Tomaz Figueira da Silva


Espaço multicultural mas, sobretudo, testemunha do processo de socialização e de vida, a Escola assume um papel incontornável na vida de todos nós. Revivemo-lo nas conversas do quotidiano, actualizando episódios pitorescos, eternizando espaços, personagens e modos de aprender e ensinar…É da escola que temos cada vez mais saudade, passado o tempo do estudo e da alegre camaradagem, o que nos faz sentir, como o poeta, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”O Liceu orgulha-se de ser esse espaço extraordinário de vivências e emoções de milhares de estudantes madeirenses. Quem são? Que recordam?

Nome: João Tomaz Figueira da Silva
Idade: 87 Anos
Profissão: Escultor
Área de formação: Curso de Belas Artes

O Lyceu – Diz-se Liceu, vem a saudade. Que importância teve o Liceu na sua vida?


Tomás Silva – Foi quando tive a noção do que tinha de aprender. O seio da família não nos dá a noção do que realmente temos de aprender. Só a experi-ência de vida nos ensina.

O Lyceu – O que mais o marcou durante os anos de frequência do Liceu?


Tomás Silva – Isso já foi há tanto tempo. Recordo-me de algo que marcou todo o curso da minha vida. Pelos meus 11 anos, no meu 1º Ano de Liceu, tive um professor de Desenho que andara a combater na Guerra de 1914, juntamente com Ângelo Silva, que veio a ser Reitor. Ora, um dia, este professor apanhou-me com um desenho que eu fiz era de um navio, o Alcântara, a entrar no porto de Lisboa. Perguntou-me entusiasmado: «O menino como é que fez isso? O menino como é que fez isso?». Expliquei que gostava de ver os navios nas gravuras e nos postais. Elogiou-me a perspectiva e, a partir desse dia, chamava-me para ir ao quadro todos os dias, para desenhar algo.Ora, foi esse entusiasmo que me impulsionou, anos depois, para o Curso Superior de Belas Artes. Nessa altura, era trabalhador-estudante e, como tinha aulas à noite, optei por seguir escultura e não pintura porque, à noite, as cores têm outras tonalidades. Agora, quando não estou a desenhar, sinto-me um zero. Creio que qualquer artista o é quando não está a trabalhar, que vale o que vale pela obra.Recordo-me ainda de outro episódio. Andaria eu no 3º Ano quando apanhámos um livro do Dr. António Mattoso, um livro de História Universal. Vi nele as pirâmides do Egipto e perguntei-me se algum dia iria lá. Curiosamente, há quatro anos estive lá. Tinha 13 anos na altura, o que significa que passei aproximadamente setenta anos a desejá-lo…

O Lyceu – Como vê a Educação hoje?


Tomás Silva – Adaptada à época.É porque, quando eu cheguei ao 7º Ano, havia reformas. Nessa altura, o “pacote” era geral do 1º ao 7º anos, quer para as Ciências quer para as Letras. Havia duas provas escritas e não havia oral. Passei tudo, até o Latim.Escolhia-se a melhor prova para classificar o aluno e eu falhei a de Matemática, porque tive de ir a uma Junta de Recrutamento.

O Lyceu – Na sua opinião, de que modo as novas tecnologias são uma mais valiapara a aprendizagem do aluno?


Tomás Silva – O ensino, como já referi, tem de se adaptar às necessidades de cada época. Por isso, hoje temos os computadores e os telemóveis. Porém, a linguagem utilizada não é a melhor. A meu ver, as máquinas devem ser utilizadas sem adulterar a língua. O nosso Fernando Pessoa, no túmulo, há-de ficar muito aborrecido com estas linguagens, ele que dizia "a minha pátria é a língua portuguesa". Contudo, não me compete a mim mas aos professores serem uma espécie de "juízes" da língua nesta matéria.

Micaela Martins - Grupo 300

Testemunhos do Liceu: Ramiro Morna do Nascimento


Espaço multicultural mas, sobretudo, testemunha do processo de socialização e de vida, a Escola assume um papel incontornável na vida de todos nós. Revivemo-lo nas conversas do quotidiano, actualizando episódios pitorescos, eternizando espaços, personagens e modos de aprender e ensinar…É da escola que temos cada vez mais saudade, passado o tempo do estudo e da alegre camaradagem, o que nos faz sentir, como o poeta, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”O Liceu orgulha-se de ser esse espaço extraordinário de vivências e emoções de milhares de estudantes madeirenses. Quem são? Que recordam?

Nome: Coronel Ramiro Morna do Nascimento
Idade: 75 Anos
Profissão: Militar Reformado, actualmente Voluntário na Cruz Vermelha
Área de formação: Curso de Infantaria da Escola do Exército

O Lyceu – Diz-se Liceu, vem a saudade. Que importância teve o Liceu na sua vida?

Ramiro Morna – Foi ali que eu me formei. Entrei lá de calça curta e saí de lá com barba. Isto entre Outubro de 1942 e Julho de 1950.Tive a sorte de ali encontrar bons amigos, que comigo estrearam o recém-construído edifício novo do Liceu. Nesse ano, ainda só estavam construídos os prédios, nem havia instalações desportivas. Chegámos inclusive a assistir à última fase de construção do Liceu. Nesta altura, havia dez turmas, três de 1º Ano e uma de cada um dos anos seguintes, e todos se conheciam, desde o 1º ao 7º Anos. Não havia guerras.Era proibido fumar e até hoje não fumo. No Liceu, só entravam os alunos da Escola. Os professores e as raparigas entravam pela porta poente, hoje a porta principal, e os rapazes pela Rua Bela de São Tiago. As instalações eram novas; o material também e o Reitor fazia vistorias a ver se as salas e as mesas se mantinham imaculadas e cada risco dos alunos era pago por eles, pois os lugares eram marcados. Quando o professor entrava, todos se levantavam. Havia muito respeito, sem desleixar a irreverência própria da juventude. No meu tempo de liceu, não ouvia as obscenidades que hoje oiço na Rua das Mercês. Havia ordem, sem repressão. Os professores eram tratados por Sr. Dr. e Sra. Dra. e usavam bata. O Sr. Reitor estava num pedestal e quem fosse chamado ao seu gabinete era por más razões. Contudo, reprovo o distanciamento entre este e os alunos. Não nos deixavam utilizar o ginásio nem jogar à bola no campo, alegando que fazia mal à saúde.

O Lyceu – O que mais o marcou durante os anos de frequência do Liceu?

Ramiro Morna – Quando eu estudei no Liceu, como já tinha referido, o novo edifício ainda estava em construção, portanto, houve uma altura em que, onde hoje é o pátio interior, para fazerem as crateras em que colocaram as árvores, os pedreiros gritavam fogo e ouvia-se um estrondo.Recordo-me ainda de professores que me marcaram. O Dr. André Cymbron, por exemplo, era o que tinha a melhor relação com os seus alunos. Até jogava à bola connosco. Mais tarde, foi reitor da Escola.Num desses jogos, o Dr. Cymbron mandou marcar um penalti e o Dr. Faria Nunes, que, na altura, era meu colega, como não concordava, tirou a bola e atravessou a escola, até à Reitoria, com ela nas mãos e o Dr. Cymbron a correr atrás dele. Por vezes, o Dr. Lufinha, que era professor de Português e Latim, também jogava à bola connosco.Não havia autorização para jogarmos futebol no campo. Era inclusive necessário pedir ao Dr. Vasco Machado para utilizá-lo. O mais engraçado é que ele passava uma licença para vólei e o Sr. Vigilante, o “Barrinhas”, não sabia ler bem, portanto, acabávamos por jogar futebol.

O Lyceu – Como vê a Educação hoje?

Ramiro Morna – Actualmente, há muito facilitismo e este conduz à preguiça, que, por sua vez, conduz à incompetência. No meu tempo de estudante, havia muito rigor nas faltas. Chumbava-se por faltas.Curiosamente, hoje, vejo o muito bom e o mau. Vejo o muito bom e faço vénias aos bons professores.O mau, em parte, deve-se àqueles professores que só têm o soldo que recebem.É ver a vergonha que é o número de faltas e baixas dos professores.Há dois ou três anos, vi nos nossos jornais o título «Professores do Porto Santo são os que mais faltam». No final do ano lectivo, no mesmo jornal, lia-se «Alunos do Porto Santo foram ao exame com média de 13,6 valores e os resultados foram uma média de 6». Ora, então, pergunto-me: a culpa será dos alunos? Não me parece.Fui ao Porto Santo, há dois anos, e, a um de Maio, quarenta professores estavam de baixa. Pergunto se as amêndoas da Páscoa lhes terão feito tanto mal.Será culpa dos médicos, que não os souberam curar ou das leis caducas que regulam o Ensino?Ao proferir estas palavras desagradáveis, curvo-me perante os Bons professores e, ao mesmo tempo, censuro os que não quiserem afinar pelo mesmo diapasão.

O Lyceu – Na sua opinião, de que modo as novas tecnologias são uma mais valiapara a aprendizagem do aluno?

Ramiro Morna – «Pelo pouco que sei, entendo que as novas tecnologias são e serão uma mais-valia para a aprendizagem dos alunos e espero que os docentes e os outros responsáveis, nomeadamente os pais e os próprios alunos, saibam tirar o melhor e o mais sadio proveito dessas invenções do Homem.»

Micaela Martins - Grupo 300

Testemunhos do Liceu: Maria Ângela Teixeira Borges


Espaço multicultural mas, sobretudo, testemunha do processo de socialização e de vida, a Escola assume um papel incontornável na vida de todos nós. Revivemo-lo nas conversas do quotidiano, actualizando episódios pitorescos, eternizando espaços, personagens e modos de aprender e ensinar…É da escola que temos cada vez mais saudade, passado o tempo do estudo e da alegre camaradagem, o que nos faz sentir, como o poeta, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”O Liceu orgulha-se de ser esse espaço extraordinário de vivências e emoções de milhares de estudantes madeirenses. Quem são? Que recordam?

Nome: Maria Ângela Teixeira Borges Gonçalves Melim
Idade: 51 anos
Profissão: ProfessoraAdjunta do Secretário Regional da Educação
Área de formação: Português / Francês
O Lyceu – Diz-se Liceu, vem a saudade. Que importância teve o Liceu na sua vida?

Ângela Borges – Estudei durante nove anos num colégio, sendo que a minha transição para o Liceu representou uma grande mudança. Essa mudança consistiu na frequência de novos espaços, no conhecimento de outro tipo de organização, no convívio com novos colegas.

O Lyceu – O que mais a marcou durante os anos de frequência do Liceu?

Ângela Borges – Penso que a resposta anterior já referencia alguns desses aspectos. No entanto, poderei realçar o factor humano. Ingressei numa área pouco escolhida pelos alunos; daí que estivesse integrada na turma de Germânicas, tivesse aulas de Grego com os alunos de História e nas aulas de Francês éramos três elementos. Ora tudo isto permitiu-me conviver com muitos colegas e “fazer” muitos amigos. Para além deste facto, existiam apenas cinco turmas de Secundário, pequeno universo muito favorável ao estreitamento de laços.

O Lyceu – Como vê a Educação hoje?

Ângela Borges – Não é muito fácil responder a esta questão, dada a abrangência da mesma. A temática da Educação, à partida, envolve vários e diferentes parceiros / agentes o que, naturalmente, dificulta o seu desenvolvimento. Actualmente as escolas modernizaram-se, é assegurada a formação docente e não docente para que o nosso público-alvo seja cada vez mais valorizado não só a nível co-gnitivo mas também pessoal e social. Penso que aqui a escola mudou e dá resposta a estas dimensões. Penso também que as nossas crianças e os nossos jovens saem da escola com uma formação mais integral, embora se oiça, muitas vezes, dizer que, antigamente, é que se aprendia… Como é obvio, com as mudanças sociais, a escola também teria de sofrer transformações! Mudaram-se “curricula”, alteraram-se programas, metodologias.. Tudo isso foi feito! No entanto, ainda se assiste a algum abandono escolar… Quais os motivos? Familiares, desmotivação relativamente às aprendizagens, programas desinteressantes e repetitivos, “curricula” demasiado extensos? Poderia enumerar uma série de motivos que provocam o insucesso mas naturalmente que a responsabilidade não é exclusivamente do aluno. Há que reflectir sobre o assunto! Antes de terminar, gostaria ainda de enfatizar, pela positiva, a forma como o sistema educativo “abraçou” o sistema formativo e vice-versa. A Escola cresceu, os nossos jovens ganharam com este processo e, consequentemente, toda a sociedade!

O Lyceu – Na sua opinião, de que modo as novas tecnologias são uma mais valiapara a aprendizagem do aluno?

Ângela Borges – Actualmente, não conhecer ou não dominar as novas tecnologias re-presenta, de certa forma, uma exclusão social. No âmbito da Educação, os docentes têm vindo a ser alvo de muita formação no sentido de poder actualizar as metodologias de ensino.Considero que as TIC deverão começar a constituir-se como uma ferramenta de suporte pedagógico e não apenas na óptica do ultilizador "normal".

Vanda Gouveia - Grupo 300

Testemunhos do Liceu: Rui Ricardo Gomes Vieira


Espaço multicultural mas, sobretudo, testemunha do processo de socialização e de vida, a Escola assume um papel incontornável na vida de todos nós. Revivemo-lo nas conversas do quotidiano, actualizando episódios pitorescos, eternizando espaços, personagens e modos de aprender e ensinar…É da escola que temos cada vez mais saudade, passado o tempo do estudo e da alegre camaradagem, o que nos faz sentir, como o poeta, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”O Liceu orgulha-se de ser esse espaço extraordinário de vivências e emoções de milhares de estudantes madeirenses. Quem são? Que recordam?

Nome: Rui Ricardo Gomes Vieira
Idade: 48 Anos
Profissão: Advogado
Área de Formação: Licenciatura em Direito

O Lyceu – Diz-se Liceu, vem a saudade. Que importância teve o Liceu na sua vida?

Ricardo Vieira – Cheguei ao Liceu vindo de um ciclo preparatório (era assim que se chamava na altura) tirado no Seminário Menor. A ansiedade de uma escola nova facilmente cedeu ao apreço pelo edifício, pelos seus espaços, pela comunidade que me acolheu e com quem convivi durante cinco anos da minha vida. Ontem como hoje, o Liceu era um símbolo que dava estatuto! Ali passei horas fundamentais da minha adolescência nos acesos anos quentes da década de setenta. Aprendi o gosto pelo co-nhecimento, a importância da reflexão, da dúvida e da racionalidade, o valor da amizade, a virtude da tolerância, até na política, o sabor dos primeiros amores! Aquele edifício foi fundamental na minha formação humana, cívica e cultural. Essa Saudade de que fala a pergunta é no meu caso açucarada pela gratidão que não me canso de recordar.

O Lyceu – O que mais o/a marcou durante os anos de frequência do Liceu?

Ricardo Vieira – Tive professores notáveis (Margarida Morna, Lídia Homem da Costa, Sales Caldeira, Manuela Pita, Sena Lino, Isabel Spranger, Raimundo Quintal e outros tantos), lidei com funcionários que eram muito mais que empregados; marcaram o meu crescimento colegas de carteira, de ano ou de Escola... mas se há uma marca profunda desses anos, essa foi a do ambiente único e irrepetível que foi o Liceu nessa época, na Região e no País que pulsava! A constituição e as eleições para as Associações de estudantes, as “greves” e as RGA’s, as ocupações, as discussões intermináveis no Gimnásio, na sala de aulas, no Café Sinai... o desafio de conciliação entre as avaliações que exigiam e o deleite de uma participação em crescendo que, apesar dos muitos abusos, alguns até imperdoáveis, deixou gravada uma experiência que muito me serve no dia a dia da minha vida.

O Lyceu – Como vê a Educação hoje?

Ricardo Vieira – Sem dúvida que mais participativa e “interactiva”. Também muito mais actualizada e útil no seu conteúdo! Em contrapartida muito menos exigente e laxista. Descredibilizada socialmente, desautorizada e fundamentalmente olhada com um preocupante e crescente desinte-ressante ou desleixo pelas famílias. No meu tempo de Liceu, a sociedade acreditava na educação, nos seus agentes, nos seus processos e conferia estatuto de relevo ao seu papel. Hoje não é infelizmente assim! Os alunos desinteressam-se, os pais não acreditam, os professores desmobilizam-se e os políticos baralham-se. A acreditação deixou de corresponder à excelência. A educação hiberna e é apenas o esforço de alguns pais e professores, nem sequer reconhecido, que faz surgir oásis neste deserto!...

O Lyceu – Na sua opinião, de que modo as novas tecnologias são uma mais valia para a aprendizagem do aluno?

Ricardo Vieira – No meu tempo, a aprendizagem era mais passiva e monolítica quer nos conteúdos, quer nos métodos. Hoje que tanto se critica o sistema educativo - muitas vezes com razão, diga-se! - é justo reconhecer que as novas tecnologias e os inúmeros e novos meios de transmisssão e recepção de conhecimentos deram ao ensino novos desafios mas propiciaram aos educandos novas competências.Sou 100% favorável ao uso de todas as novas tecnologias até como forma de cativar ao ensino jovens que trazem de casa, do clube ou de outras experiências, valências nestas áreas que não podem deixar de ser reflectidas na escola. A Escola está na sociedade e deve naturalmente acompanhar todas as inovações nessas áreas!

Vanda Gouveia - Grupo 300